Boa tarde, Tatiana,
Que tema interessante cascalheira é um daqueles segmentos que gera bastante dúvida porque mistura contabilidade de estoques com as particularidades da extração mineral. Vou explicar com calma.
O que é o estoque de uma cascalheira?
Uma cascalheira é uma empresa de extração mineral — ela extrai cascalho, areia, brita ou materiais similares do solo. O estoque dela é o material já extraído e disponível para venda, que fica geralmente em pilhas no próprio terreno aguardando comercialização.
Esse estoque é classificado contabilmente como estoque de produtos acabados ou estoque de mercadorias, a depender de como a empresa está organizada — se ela apenas extrai e vende sem beneficiamento relevante, trata-se de mercadoria para revenda; se há algum processamento (britagem, peneiramento, etc.), pode ser tratado como produto acabado.
Como avaliar esse estoque?
Pelo CPC 16, o estoque deve ser mensurado pelo seu custo de aquisição ou produção. No caso de uma cascalheira, como o material é extraído da própria jazida, o custo inclui:
Mão de obra direta envolvida na extração (operadores de máquinas, por exemplo)
Combustível e manutenção dos equipamentos utilizados
Depreciação das máquinas e equipamentos de extração
Custos com a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais), que é a "royalty" da mineração — paga à União com alíquotas que variam conforme o tipo de minério
Outros custos diretos de extração
O que não entra no custo do estoque são despesas administrativas, despesas de venda e custos financeiros — esses vão direto para o resultado.
E no Simples Nacional, como fica?
No Simples Nacional, os impostos recolhidos pelo DAS já estão incluídos no regime, então não há créditos de ICMS, PIS ou COFINS a serem deduzidos do custo de estoque — diferente do que acontece no Lucro Real com não cumulatividade. Isso significa que o estoque é registrado pelo custo integral, sem exclusão de tributos recuperáveis, porque no Simples não há essa recuperação.
Os lançamentos contábeis básicos
Quando o material é extraído e forma estoque:
Débito: Estoque de Cascalho/Areia (Ativo Circulante)
Crédito: Custos de Extração em Andamento ou diretamente nas contas de custos correspondentes (salários, combustível, depreciação)
Quando o estoque é vendido:
Débito: CMV — Custo das Mercadorias Vendidas
Crédito: Estoque de Cascalho/Areia
Um ponto de atenção importante: a jazida em si
O cascalho ainda dentro do solo (não extraído) não é estoque — ele é tratado como ativo intangível ou ativo imobilizado (recurso mineral), sujeito à exaustão, não à depreciação convencional. A conta de exaustão vai reconhecendo a redução desse recurso conforme a extração acontece.
Então na prática você vai ter dois registros distintos: a jazida no imobilizado/intangível sendo exaurida, e o material já extraído no estoque sendo baixado conforme as vendas.
Método de custeio
Para empresas de extração menor, o mais comum e prático é o custo médio ponderado, que vai atualizando o valor unitário do estoque conforme novos lotes são extraídos com custos diferentes. O PEPS (primeiro a entrar, primeiro a sair) também é aceito, mas costuma ser mais complexo de operacionalizar nesse tipo de atividade.